Ardência, sensação de areia nos olhos, visão embaçada que melhora ao piscar. Se você reconhece esses sintomas, provavelmente tem olho seco, uma das condições oculares mais comuns e mais subestimadas depois dos 50 anos. Entenda por que acontece, quem está em risco e o que realmente ajuda.
“Doutora, meus olhos ardem o dia todo. Uso colírio lubrificante toda hora, mas só melhora por alguns minutos. Isso é normal da idade?”
Não, não é normal da idade. E “usar colírio” nem sempre é a resposta certa, especialmente quando o tipo errado de colírio é usado, ou quando a causa do olho seco não foi identificada.
O olho seco é muito mais do que um incômodo. Nos casos moderados a graves, ele compromete a qualidade de vida, prejudica a visão e, quando não tratado adequadamente, pode causar dano à superfície ocular. Entender o que está causando o problema é o primeiro passo para tratar de verdade.
O que é o olho seco?
O olho seco, tecnicamente chamado de Síndrome do Olho Seco (SOS) ou Doença do Olho Seco (DOE), é uma condição crônica em que a superfície ocular não recebe lubrificação adequada. Isso pode acontecer por dois motivos principais, que frequentemente coexistem:
- Produção insuficiente de lágrima: as glândulas lacrimais produzem menos lágrima do que o necessário para manter a superfície ocular úmida e saudável
- Evaporação excessiva da lágrima: a lágrima é produzida em quantidade suficiente, mas evapora rápido demais por causa de alterações na sua composição, especialmente na camada lipídica produzida pelas glândulas de Meibômio
A lágrima não é simplesmente água. É uma estrutura complexa, formada por três camadas, a mucosa, a aquosa e a lipídica, que trabalham juntas para manter a superfície do olho lisa, úmida, protegida e com boa qualidade óptica. Quando qualquer uma dessas camadas é comprometida, o olho seco se instala.
Quem tem maior risco de desenvolver olho seco?
O olho seco pode afetar qualquer pessoa, mas alguns fatores aumentam muito o risco:
- Idade acima de 50 anos. A produção de lágrima diminui naturalmente com o envelhecimento, e as glândulas de Meibômio perdem eficiência
- Sexo feminino, especialmente após a menopausa. As alterações hormonais afetam diretamente a composição e o volume da lágrima
- Uso prolongado de telas (computador, celular, tablet). A frequência de piscar diminui significativamente durante o uso de telas, reduzindo a renovação do filme lacrimal
- Uso de lentes de contato, especialmente por tempo prolongado
- Medicamentos como anti-histamínicos, antidepressivos, diuréticos, anti-hipertensivos e anticoncepcionais orais, que podem reduzir a produção lacrimal
- Doenças autoimunes, como Síndrome de Sjögren, artrite reumatoide e lúpus
- Ambiente seco, com ar condicionado ou aquecimento, que acelera a evaporação da lágrima
- Cirurgias oculares prévias, incluindo cirurgia refrativa (LASIK) e cirurgia de catarata
- Blefarite (inflamação das pálpebras) e disfunção das glândulas de Meibômio
- Tabagismo
- Deficiência de vitamina A
Sintomas do olho seco
Os sintomas variam de leves a incapacitantes, e nem sempre são intuitivos. Um dos sinais mais confusos para os pacientes é o lacrimejamento excessivo, que parece contraditório, mas é frequente no olho seco. Acontece porque a superfície irritada e ressecada estimula o reflexo lacrimal, produzindo lágrima em excesso de forma reflexiva, que evapora rapidamente e não resolve o problema de base.
Os sintomas mais comuns incluem:
- Ardência, queimação ou coceira nos olhos
- Sensação de areia ou corpo estranho
- Visão embaçada que melhora momentaneamente ao piscar
- Vermelhidão ocular
- Sensibilidade à luz (fotofobia)
- Lacrimejamento excessivo e reflexo
- Desconforto ou intolerância ao uso de lentes de contato
- Cansaço visual rápido durante leitura ou uso de telas
- Olhos que “colam” ao acordar, especialmente nas bordas das pálpebras
- Piora dos sintomas no final do dia, em ambientes com ar condicionado ou vento
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do olho seco é clínico, feito pelo oftalmologista durante a consulta. Existem vários testes que ajudam a confirmar o diagnóstico, identificar o tipo e a gravidade da doença e orientar o tratamento mais adequado:
- Teste de Schirmer: mede o volume de lágrima produzida, por meio de uma tirazinha de papel colocada na pálpebra inferior por 5 minutos
- Tempo de Ruptura do Filme Lacrimal (TBUT): avalia a estabilidade da lágrima, medindo quanto tempo ela leva para se fragmentar após o piscar
- Coloração com fluoresceína e Rosa Bengala: corantes que revelam danos na superfície da córnea e da conjuntiva causados pelo ressecamento
- Avaliação das glândulas de Meibômio: exame das pálpebras para identificar obstrução ou disfunção das glândulas que produzem a camada lipídica da lágrima
- Osmolaridade lacrimal: exame mais moderno que mede a concentração da lágrima, com alta sensibilidade para diagnosticar olho seco
Tratamento do olho seco
O tratamento depende do tipo, da causa e da gravidade do olho seco. Não existe uma solução única para todos. O objetivo é restaurar e manter a estabilidade do filme lacrimal, reduzir a inflamação da superfície ocular e aliviar os sintomas.
Lubrificantes oculares, colírios e géis
São a base do tratamento. Existem diferentes formulações, com viscosidades, composições e conservantes variados. A escolha do lubrificante certo para o seu tipo de olho seco faz muita diferença no resultado.
Colírios com conservantes, usados muitas vezes ao dia, podem piorar a inflamação da superfície ocular ao longo do tempo. Para pacientes que precisam de lubrificação frequente, as formulações sem conservante (monodose) são geralmente mais indicadas.
Tratamento das glândulas de Meibômio
A disfunção das glândulas de Meibômio é a causa mais comum de olho seco evaporativo. O tratamento inclui:
- Compressas mornas nas pálpebras diariamente, para amolecer as secreções endurecidas e melhorar o fluxo das glândulas
- Higiene palpebral com produtos específicos para remoção de crostas e secreções das bordas das pálpebras
- Expressão das glândulas de Meibômio pelo oftalmologista durante a consulta
- Suplementação com ômega-3, que melhora a qualidade da secreção lipídica das glândulas
Colírios anti-inflamatórios
O olho seco moderado a grave frequentemente tem um componente inflamatório importante. Colírios à base de ciclosporina ou lifitegraste atuam diretamente na inflamação da superfície ocular, e não apenas nos sintomas. São indicados pelo oftalmologista quando a lubrificação isolada não é suficiente.
Plugues de ponto lacrimal
Pequenos dispositivos inseridos nos canais de drenagem das lágrimas, chamados pontos lacrimais, para reduzir o escoamento da lágrima e manter mais umidade na superfície ocular. São uma opção para casos em que a produção lacrimal é insuficiente e o tratamento clínico não é suficiente.
Soro autólogo
Colírio preparado a partir do próprio sangue do paciente, que contém fatores de crescimento e nutrientes que nutrem e regeneram a superfície ocular. Indicado para casos graves, especialmente quando há dano significativo à córnea.
Ajustes no ambiente e nos hábitos
- Reduzir o tempo de exposição a telas e fazer pausas regulares, seguindo a regra 20-20-20: a cada 20 minutos, olhar para algo a 20 pés de distância por 20 segundos
- Usar umidificadores de ambiente em locais com ar condicionado ou aquecimento
- Usar óculos de sol com proteção lateral ao ar livre e em ambientes ventosos
- Revisar com o médico os medicamentos em uso que possam contribuir para o olho seco
- Parar de fumar
- Aumentar a ingestão de água e de alimentos ricos em ômega-3
Olho seco tem cura?
Depende da causa. Quando o olho seco tem uma causa tratável, como disfunção das glândulas de Meibômio bem controlada, uso de medicamento que pode ser substituído ou deficiência nutricional corrigida, é possível chegar muito próximo da resolução completa.
Nos casos crônicos, especialmente associados ao envelhecimento ou a doenças autoimunes, o olho seco exige manejo contínuo. O objetivo é controlar os sintomas, proteger a superfície ocular e manter a qualidade de vida. Com o tratamento correto, a grande maioria dos pacientes consegue viver sem desconforto significativo.
Olho seco e cirurgia de catarata
Uma informação importante para quem tem indicação de cirurgia de catarata: o olho seco pré-existente pode afetar a precisão dos cálculos biométricos usados para escolher a lente intraocular, e pode piorar temporariamente no pós-operatório.
Por isso, identificar e tratar o olho seco antes da cirurgia é parte fundamental do preparo pré-operatório. Informe seu oftalmologista sobre qualquer sintoma de ressecamento ocular antes de operar.
Perguntas Frequentes
Posso usar qualquer colírio lubrificante que encontrar na farmácia?
Não idealmente. Existem muitas formulações diferentes, e a escolha errada pode não resolver o problema ou até irritar mais o olho. Colírios com conservantes, usados muitas vezes ao dia, podem ser prejudiciais a longo prazo. Consulte um oftalmologista para identificar o lubrificante mais adequado para o seu caso.
Por que meus olhos lacrimejam muito se tenho olho seco?
O lacrimejamento reflexivo é uma resposta do organismo à irritação da superfície ocular ressecada. É uma lágrima de “emergência”, que não tem a mesma composição e estabilidade da lágrima normal, e por isso evapora rapidamente sem resolver o ressecamento.
O olho seco pode prejudicar a visão permanentemente?
Em casos graves e não tratados, sim. O ressecamento crônico pode causar dano à córnea, com formação de cicatrizes que comprometem a transparência e a qualidade visual. Por isso, o tratamento adequado e o acompanhamento regular são importantes mesmo quando os sintomas parecem “apenas um incômodo”.
Usar celular e computador causa olho seco?
O uso de telas não causa olho seco por si só, mas agrava muito quem já tem predisposição. Durante o uso de telas, a frequência de piscar cai de 15 a 20 vezes por minuto para 5 a 7 vezes por minuto, o que reduz drasticamente a renovação do filme lacrimal. Pausas regulares e piscar conscientemente ajudam.
Ômega-3 realmente ajuda no olho seco?
Sim, especialmente nos casos de disfunção das glândulas de Meibômio. O ômega-3 melhora a qualidade da secreção lipídica dessas glândulas, tornando a camada oleosa da lágrima mais eficiente e reduzindo a evaporação. Os resultados não são imediatos, podendo levar alguns meses para aparecer.
Conclusão
O olho seco é uma condição muito comum, mas não é “normal da idade” e não precisa ser tolerado como algo inevitável. Com diagnóstico correto e tratamento adequado, é possível controlar os sintomas, proteger a superfície ocular e recuperar o conforto visual no dia a dia.
Se você sente ardência, sensação de areia, visão embaçada frequente ou qualquer outro sintoma de ressecamento ocular, não se automedique com o primeiro colírio que encontrar. Procure um oftalmologista para identificar a causa e receber o tratamento certo para o seu caso.
Tem sintomas de olho seco e não sabe por onde começar? Agende uma consulta. Vamos identificar a causa, ajustar o tratamento e devolver o conforto que seus olhos merecem.
Dra. Gabriella Lopes | Especialista em Retina e Catarata | Atendimento humanizado e tecnologia de ponta.
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