Olho vermelho com dor, sensibilidade intensa à luz e visão embaçada que não passa com colírio comum. Esses sinais podem indicar uveíte, uma inflamação ocular que, quando não tratada corretamente, pode causar cegueira permanente. Entenda o que é, como identificar e por que o diagnóstico precoce faz toda a diferença.
“Doutora, meu olho está vermelho e doendo há uma semana. Fui à farmácia e usei colírio para vermelhidão, mas não melhorou nada.”
Quando ouço esse relato no consultório, acendo um sinal de alerta imediatamente. Olho vermelho com dor e fotossensibilidade que não responde a colírios comuns é um dos sinais clássicos de uveíte, e automedicar essa condição pode atrasar o diagnóstico e causar danos irreversíveis à visão.
A uveíte é responsável por cerca de 10 a 15% dos casos de cegueira evitável no mundo. Ela pode afetar adultos jovens e pessoas em plena atividade profissional, não apenas idosos. E, ao contrário do que muitos imaginam, raramente é causada por infecção ocular comum.
O que é a uveíte?
A uveíte é a inflamação da úvea, a camada intermediária do olho, formada pela íris, pelo corpo ciliar e pela coroide. Essas estruturas são altamente vascularizadas e têm papel fundamental na nutrição do olho e na regulação da pressão intraocular.
Quando inflamadas, liberam células e proteínas inflamatórias que “contaminam” os meios oculares normalmente transparentes, como o humor aquoso e o vítreo, prejudicando a visão e podendo danificar estruturas como a retina, o nervo óptico e o cristalino.
O termo “uveíte” é amplo e engloba um grupo heterogêneo de condições, com causas, localizações, comportamentos e tratamentos muito diferentes entre si.
Tipos de uveíte
A uveíte é classificada principalmente pela localização da inflamação dentro do olho:
Uveíte anterior
É a forma mais comum, correspondendo a cerca de 50 a 60% dos casos. A inflamação se concentra na parte da frente do olho, especialmente na íris (irite) e no corpo ciliar anterior (iridociclite). Costuma causar os sintomas mais intensos e perceptíveis, como dor, vermelhidão e fotofobia.
Uveíte intermediária
A inflamação ocorre principalmente no vítreo e na periferia da retina. Causa menos dor do que a uveíte anterior, mas pode provocar moscas volantes abundantes e visão turva. Está frequentemente associada a doenças sistêmicas como esclerose múltipla e sarcoidose.
Uveíte posterior
Afeta a retina e a coroide, as estruturas mais importantes para a visão. Pode ser silenciosa nas fases iniciais, sem dor ou vermelhidão, mas compromete gravemente a visão quando não tratada. É frequentemente causada por infecções, como toxoplasmose ocular, a forma mais comum no Brasil, e citomegalovírus.
Panuveíte
Inflamação que afeta todas as camadas do olho simultaneamente. É a forma mais grave, com maior risco de complicações e perda visual.
O que causa a uveíte?
Identificar a causa é fundamental para definir o tratamento correto. As uveítes podem ser classificadas em três grandes grupos:
Uveítes infecciosas
Causadas por agentes infecciosos que atingem o olho, seja por via sistêmica ou diretamente. No Brasil, as principais causas infecciosas são:
- Toxoplasmose ocular: causada pelo parasita Toxoplasma gondii, é a causa mais comum de uveíte posterior no Brasil. Muitos pacientes adquirem a infecção na infância e apresentam reativações ao longo da vida
- Citomegalovírus (CMV): especialmente em pacientes imunossuprimidos, como portadores de HIV
- Herpes simples e herpes-zóster: podem causar uveítes anteriores graves
- Sífilis ocular: reapareceu como causa importante de uveíte no Brasil nos últimos anos
- Tuberculose ocular: ainda relevante em regiões de maior prevalência
- Leptospirose, dengue e outras doenças tropicais
Uveítes associadas a doenças sistêmicas
Muitas doenças autoimunes e inflamatórias sistêmicas podem causar uveíte como manifestação ocular:
- Espondilite anquilosante e outras espondiloartropatias
- Artrite idiopática juvenil
- Doença de Behçet
- Sarcoidose
- Doença inflamatória intestinal (retocolite ulcerativa e doença de Crohn)
- Esclerose múltipla
- Lúpus eritematoso sistêmico
Uveítes idiopáticas
Em cerca de 30 a 50% dos casos, especialmente nas uveítes anteriores, não se encontra uma causa sistêmica ou infecciosa identificável. Nesses casos, o diagnóstico é de uveíte idiopática, e o tratamento é voltado para o controle da inflamação.
Sintomas da uveíte
Os sintomas variam conforme a localização da inflamação:
Uveíte anterior, os sinais mais intensos
- Dor ocular, frequentemente descrita como profunda e latejante
- Olho vermelho, especialmente ao redor da córnea (hiperemia ciliar)
- Fotofobia intensa, sensibilidade extrema à luz
- Visão embaçada
- Lacrimejamento
- Em alguns casos, pupila irregular ou menor do que o normal no olho afetado
Uveíte posterior, os sinais mais silenciosos
- Moscas volantes novas e abundantes
- Visão turva ou embaçada sem dor
- Pontos ou manchas escuras no campo visual
- Distorção visual
- Perda progressiva da visão central ou periférica
Atenção: nem toda uveíte dói. A uveíte posterior pode ser completamente indolor enquanto destrói silenciosamente a retina. Qualquer visão turva persistente, mesmo sem dor ou vermelhidão, merece avaliação oftalmológica.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da uveíte exige avaliação especializada. O oftalmologista examina o olho com lâmpada de fenda, identificando células inflamatórias no humor aquoso e no vítreo, precipitados ceráticos e outras alterações características.
Dependendo do quadro clínico, podem ser solicitados:
- Exames laboratoriais para investigar causas infecciosas e sistêmicas, como sorologias para toxoplasmose, sífilis, herpes, tuberculose, marcadores inflamatórios e autoanticorpos
- Exames de imagem sistêmicos, como radiografia de tórax, tomografia e ressonância magnética, dependendo da suspeita diagnóstica
- OCT para avaliar envolvimento macular e alterações da retina
- Angiofluoresceinografia para mapear a extensão da inflamação vascular na retina
- Ultrassom ocular quando há opacidade dos meios que impede a visualização direta da retina
Em muitos casos, o acompanhamento conjunto com reumatologista, infectologista ou clínico geral é necessário para tratar a causa de base.
Tratamento da uveíte
O tratamento depende da causa, da localização e da gravidade da inflamação. O objetivo principal é controlar a inflamação rapidamente para evitar dano às estruturas oculares.
Corticosteroides
São a base do tratamento anti-inflamatório na maioria dos casos de uveíte não infecciosa. Podem ser administrados de diferentes formas:
- Colírios de corticoide, para uveítes anteriores
- Injeções perioculares, ao redor do olho, para uveítes intermediárias e posteriores
- Injeções intravítreas de corticoide ou implantes de liberação prolongada
- Corticosteroides sistêmicos (comprimidos), para casos graves ou bilaterais
Midriáticos e cicloplégicos
Colírios que dilatam a pupila, usados nas uveítes anteriores para aliviar a dor, prevenir sinéquias (aderências da íris ao cristalino) e reduzir o espasmo do corpo ciliar.
Tratamento específico da causa
Quando a uveíte tem causa identificada, o tratamento da causa de base é fundamental:
- Antiparasitários para toxoplasmose ocular
- Antivirais para uveítes herpéticas e por CMV
- Antibióticos para sífilis, tuberculose e outras causas bacterianas
Imunossupressores e imunobiológicos
Para uveítes crônicas, recorrentes ou associadas a doenças autoimunes que não respondem adequadamente aos corticosteroides, podem ser necessários imunossupressores (como metotrexato, azatioprina e micofenolato) ou medicamentos biológicos (como adalimumabe), frequentemente prescritos em conjunto com o reumatologista.
Complicações da uveíte não tratada
A uveíte não tratada ou inadequadamente controlada pode levar a complicações graves e permanentes:
- Catarata complicada: a inflamação crônica e o uso prolongado de corticosteroides podem acelerar o desenvolvimento de catarata
- Glaucoma: a inflamação e as sinéquias podem bloquear a drenagem do humor aquoso, elevando a pressão intraocular
- Edema macular cistóide: acúmulo de líquido na mácula, principal causa de perda visual na uveíte
- Descolamento de retina
- Neovascularização da retina e da coroide
- Atrofia do nervo óptico
- Phthisis bulbi: degeneração total do olho nos casos mais graves e neglenciados
Uveíte recorrente: o que esperar
A uveíte pode ser um episódio único ou uma condição crônica e recorrente, dependendo da causa. Pacientes com uveíte associada a doenças autoimunes ou com toxoplasmose ocular têm maior risco de recorrência ao longo da vida.
Para esses pacientes, o acompanhamento regular com o oftalmologista especializado é fundamental, mesmo nos períodos sem sintomas. A detecção precoce de uma recorrência e o início imediato do tratamento são as melhores ferramentas para preservar a visão a longo prazo.
Perguntas Frequentes
Uveíte é contagiosa?
A uveíte em si não é contagiosa. A maioria dos casos não tem causa infecciosa, e mesmo quando tem, a transmissão da infecção para outro indivíduo não transmite a uveíte diretamente.
Posso usar colírio para vermelhidão se suspeitar de uveíte?
Não. Colírios vasoconstritores comuns, usados para “tirar o vermelho”, não tratam a uveíte e podem mascarar os sintomas, atrasando o diagnóstico correto. Olho vermelho com dor e fotofobia deve ser avaliado por oftalmologista com urgência.
A uveíte pode afetar os dois olhos?
Sim. A uveíte pode ser unilateral ou bilateral. Uveítes associadas a doenças sistêmicas autoimunes têm maior tendência a afetar os dois olhos, às vezes de forma assimétrica.
Tenho uveíte recorrente. Vou ficar cego?
Com acompanhamento regular e tratamento adequado a cada episódio, a grande maioria dos pacientes com uveíte recorrente preserva visão funcional por toda a vida. O risco de perda visual grave existe, mas é muito reduzido com o manejo correto e o monitoramento contínuo.
A uveíte tem relação com outras doenças do meu corpo?
Sim, frequentemente. Por isso, ao diagnosticar uveíte, o oftalmologista frequentemente solicita exames sistêmicos e pode encaminhar para avaliação com reumatologista, infectologista ou clínico geral. Tratar só o olho sem investigar a causa pode resultar em recorrências frequentes.
Conclusão
A uveíte é uma condição séria, que exige diagnóstico especializado e tratamento preciso. Olho vermelho com dor e fotofobia não é “conjuntivite comum” e não deve ser tratado com colírio de farmácia sem avaliação médica.
Com diagnóstico correto, identificação da causa e tratamento adequado, é possível controlar a inflamação, prevenir complicações e preservar a visão na grande maioria dos casos. O que não se pode fazer é ignorar os sintomas ou automedicar uma condição que pode evoluir rapidamente para dano irreversível.
Está com olho vermelho, dor ocular ou sensibilidade à luz que não melhora? Não trate com colírio comum. Agende uma avaliação especializada. Quanto antes o diagnóstico, menores os riscos para a sua visão.
Dra. Gabriella Lopes | Especialista em Retina e Catarata
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Sua visão não pode esperar.

