Grau de óculos que muda com frequência, visão embaçada e distorcida mesmo com a correção correta, e intolerância crescente às lentes de contato. Esses podem ser sinais de ceratocone, uma doença da córnea que afeta principalmente jovens e adultos em plena atividade. Entenda o que é, como identificar e quais são as opções de tratamento disponíveis hoje.
“Doutora, já troquei de óculos três vezes em dois anos e continuo sem enxergar bem. O que está acontecendo?”
Essa queixa é um dos sinais de alerta clássicos do ceratocone. Não é o óculos errado, não é o optometrista que mediu mal o grau e não é exagero do paciente. É a córnea mudando de forma progressivamente, tornando qualquer correção óptica convencional insuficiente.
O ceratocone é subdiagnosticado no Brasil, frequentemente confundido com miopia e astigmatismo comuns. Identificá-lo cedo faz toda a diferença para o resultado do tratamento.
O que é o ceratocone?
O ceratocone é uma doença progressiva da córnea, a cúpula transparente na frente do olho, em que ela perde sua forma esférica regular e começa a se afinar e abombar para a frente em formato cônico. O nome vem exatamente disso: kerato (córnea) e konos (cone).
A córnea normal tem uma curvatura uniforme que refrata a luz de forma precisa sobre a retina. No ceratocone, a deformação progressiva faz com que a luz seja refratada de forma irregular, produzindo visão distorcida, embaçada e com múltiplas imagens sobrepostas, que não se corrige adequadamente com óculos convencionais.
A doença geralmente começa na puberdade ou no início da idade adulta, entre os 10 e os 25 anos, e progride de forma variável por 10 a 20 anos antes de se estabilizar.
O que causa o ceratocone?
A causa exata ainda não é completamente compreendida, mas sabe-se que envolve uma combinação de fatores genéticos e ambientais:
- Genética: o ceratocone tem componente hereditário importante. Cerca de 10% dos pacientes têm histórico familiar da doença. Parentes de primeiro grau devem ser avaliados, mesmo sem queixas
- Coceira e esfregamento dos olhos: um dos fatores de risco mais estudados e modificáveis. O hábito de esfregar os olhos com força, frequentemente associado a alergias oculares, acelera a progressão do ceratocone e pode desencadeá-lo em pacientes com predisposição genética
- Alergias oculares: a coceira crônica leva ao esfregamento, que leva ao dano progressivo da córnea
- Doenças do tecido conjuntivo: síndrome de Down, síndrome de Marfan e síndrome de Ehlers-Danlos têm maior prevalência de ceratocone
- Uso prolongado de lentes de contato rígidas mal adaptadas
Sintomas do ceratocone
Os sintomas variam conforme o estágio da doença e costumam ser progressivos:
Fases iniciais
- Visão embaçada que não melhora adequadamente com óculos
- Necessidade frequente de troca de grau, especialmente do astigmatismo
- Astigmatismo irregular, que não se corrige bem com óculos convencionais
- Sensibilidade crescente à luz e halos ao redor de fontes luminosas
Fases moderadas e avançadas
- Visão significativamente distorcida, com imagens duplicadas ou múltiplas em um único olho
- Intolerância às lentes de contato moles convencionais
- Visão muito ruim mesmo com a melhor correção disponível
- Em casos avançados, a deformação da córnea pode ser visível a olho nu como uma protuberância cônica
Hidropsia aguda
Em casos avançados, a córnea afinada pode se romper internamente, permitindo a entrada de líquido no tecido corneano. Isso causa dor intensa, piora súbita da visão e olho vermelho. É uma complicação que exige atendimento oftalmológico urgente, mas paradoxalmente pode resultar em cicatrizes que às vezes estabilizam a córnea.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico precoce do ceratocone depende de exames específicos que avaliam a forma e a espessura da córnea. O exame de grau convencional não é suficiente para detectar a doença nas fases iniciais.
- Topografia corneana: mapa da curvatura da superfície anterior da córnea. É o exame mais utilizado para rastrear e acompanhar o ceratocone, identificando a deformação cônica mesmo antes dos sintomas
- Tomografia corneana (Pentacam, Sirius): avalia tanto a superfície anterior quanto a posterior da córnea, além da espessura em todos os pontos. É o exame mais completo para diagnóstico e estadiamento do ceratocone
- Paquimetria: mede a espessura da córnea, que tende a ser reduzida no apex do cone
- Aberrometria: mede as aberrações ópticas do olho, que são muito aumentadas no ceratocone
A topografia corneana é recomendada para todos os pacientes que cogitam fazer cirurgia refrativa a laser (LASIK, PRK), pois o ceratocone é uma das principais contraindicações absolutas a esse tipo de cirurgia.
Tratamento do ceratocone
O tratamento depende do estágio da doença e da velocidade de progressão. A abordagem atual combina duas frentes: estabilizar a progressão e melhorar a qualidade visual.
Cross-linking corneano, para estabilizar a progressão
O cross-linking (CXL) é o único tratamento capaz de interromper ou retardar a progressão do ceratocone. O procedimento consiste na aplicação de vitamina B2 (riboflavina) na córnea seguida de exposição à luz ultravioleta-A, criando novas ligações entre as fibras de colágeno da córnea e aumentando sua resistência mecânica.
Indicações principais:
- Ceratocone em progressão documentada (piora do grau ou da topografia nos últimos 12 meses)
- Pacientes jovens, com maior risco de progressão ao longo da vida
- Córnea com espessura suficiente para realizar o procedimento com segurança
O cross-linking não melhora a visão atual, e sim impede que ela piore. Após o procedimento, outras abordagens podem ser combinadas para otimizar a qualidade visual.
Lentes de contato especiais, para melhorar a visão
As lentes de contato convencionais moles geralmente não corrigem bem a visão no ceratocone, pois se adaptam à forma irregular da córnea sem corrigi-la. As lentes especiais criam uma superfície de refração regular sobre a córnea deformada:
- Lentes rígidas gás-permeáveis (RGP): a opção mais clássica e ainda amplamente utilizada. Corrigem bem as irregularidades, mas o conforto pode ser menor do que o das lentes moles
- Lentes híbridas: centro rígido com periferia mole, combinando boa correção óptica com maior conforto
- Lentes esclerais: lentes de grande diâmetro que apoiam na esclera (parte branca do olho) e criam um reservatório de solução salina sobre a córnea. Oferecem excelente correção óptica e conforto superior, sendo hoje a opção preferida para ceratocones moderados e avançados
Implante de anéis intracorneanos
Segmentos de plástico (Ferrara ou Intacs) implantados no interior da córnea para aplanar parcialmente o cone e regularizar a superfície corneana. Podem melhorar a qualidade visual e facilitar a adaptação de lentes de contato. São uma opção intermediária quando as lentes não são suficientes, mas o transplante ainda não é necessário.
Transplante de córnea
Indicado para casos avançados em que as opções anteriores não são suficientes para proporcionar visão funcional adequada. Pode ser realizado de forma penetrante (substituição total da córnea) ou lamelar (substituição apenas das camadas anteriores, preservando o endotélio do paciente).
O transplante de córnea tem boas taxas de sucesso, mas é uma cirurgia de maior complexidade, com período de recuperação mais longo e necessidade de acompanhamento rigoroso. Com o diagnóstico precoce e o cross-linking nos estágios iniciais, muitos pacientes evitam chegar ao transplante.
O ceratocone afeta os dois olhos?
Sim, na grande maioria dos casos. O ceratocone é bilateral em cerca de 96% dos pacientes, embora frequentemente assimétrico, com um olho mais avançado do que o outro. Por isso, quando o diagnóstico é feito em um olho, o outro deve ser avaliado imediatamente e acompanhado regularmente.
Ceratocone e cirurgia de catarata
Pacientes com ceratocone que desenvolvem catarata têm peculiaridades importantes no planejamento cirúrgico. A córnea irregular compromete a precisão dos cálculos biométricos para a lente intraocular, e lentes premium multifocais geralmente não são indicadas nesses casos, pois dependem de uma córnea regular para funcionar bem.
O planejamento pré-operatório cuidadoso e a comunicação clara sobre as expectativas visuais são fundamentais para esses pacientes.
Perguntas Frequentes
Ceratocone tem cura?
Não no sentido de reverter a deformação da córnea. Mas com cross-linking para estabilizar a progressão e lentes de contato especiais ou cirurgia para melhorar a visão, a grande maioria dos pacientes leva uma vida normal e com boa qualidade visual.
Posso fazer cirurgia a laser para corrigir o ceratocone?
Não. A cirurgia refrativa a laser (LASIK, PRK) é contraindicada no ceratocone, pois remove tecido corneano, tornando a córnea ainda mais fina e frágil. Realizá-la em um paciente com ceratocone pode acelerar gravemente a progressão da doença. Por isso a topografia corneana é obrigatória antes de qualquer cirurgia refrativa.
Preciso parar de esfregar os olhos?
Sim, definitivamente. O esfregamento dos olhos é um dos fatores de risco mais importantes para a progressão do ceratocone. Se você tem alergia ocular que causa coceira, tratar a alergia adequadamente é parte do manejo do ceratocone. Converse com seu oftalmologista sobre opções para controlar a coceira sem recorrer ao esfregamento.
Meu filho de 14 anos foi diagnosticado com ceratocone. O que fazer?
O diagnóstico precoce em adolescentes é muito importante, pois a progressão tende a ser mais rápida em pacientes jovens. O cross-linking provavelmente será indicado se houver progressão documentada. O acompanhamento semestral com topografia corneana é fundamental para monitorar a evolução e intervir no momento certo.
Ceratocone incapacita permanentemente?
Na grande maioria dos casos, não. Com o tratamento adequado, especialmente quando diagnosticado precocemente, os pacientes com ceratocone conseguem manter boa qualidade visual e vida plena. Casos muito avançados e neglenciados podem exigir transplante de córnea, que também tem bons resultados na maioria das vezes.
Conclusão
O ceratocone é uma doença progressiva, mas não é uma sentença. Com diagnóstico precoce, estabilização com cross-linking nos casos indicados e correção visual adequada, a maioria dos pacientes preserva visão funcional e qualidade de vida por toda a vida.
Se você ou alguém da sua família troca de grau com frequência, tem astigmatismo irregular difícil de corrigir ou enxerga mal mesmo com os óculos certos, não ignore esses sinais. Uma topografia corneana pode mudar completamente o rumo do tratamento.
Grau mudando com frequência? Visão distorcida mesmo com óculos? Esses podem ser sinais de ceratocone. Agende uma avaliação completa e descubra o que está acontecendo com a sua córnea.
Dra. Gabriella Lopes | Especialista em Retina e Catarata
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