Uma película esbranquiçada crescendo sobre o olho, irritação constante e vermelhidão que não passa. Se você reconhece essa descrição, provavelmente está familiarizado com o pterígio, uma das condições oculares mais comuns em regiões tropicais. Entenda o que é, quando operar e como prevenir o retorno.
“Doutora, tenho uma película branca crescendo no meu olho há anos. O médico disse que é pterígio. Preciso operar?”
Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório. E a resposta depende de vários fatores: o tamanho do pterígio, a velocidade com que está crescendo, os sintomas que está causando e, fundamentalmente, se está se aproximando da córnea central.
O pterígio não é urgência na maioria dos casos, mas também não deve ser ignorado indefinidamente. Entender quando observar e quando agir é o que este artigo vai te ajudar a decidir.
O que é o pterígio?
O pterígio é um crescimento anormal de tecido conjuntival, a membrana que reveste a parte branca do olho e o interior das pálpebras, que avança sobre a córnea, a cúpula transparente na frente do olho. Geralmente começa no lado nasal, próximo ao nariz, e cresce em direção ao centro da córnea.
O nome vem do grego pterygion, que significa “asa pequena”, em referência à forma triangular característica da lesão.
O pterígio não é um tumor maligno e não oferece risco de vida. Mas pode causar sintomas significativos e, quando avança sobre a córnea, comprometer a visão de forma progressiva e às vezes permanente.
O pterígio é a mesma coisa que pinguécula?
Não, embora sejam condições relacionadas e frequentemente confundidas.
A pinguécula é um depósito amarelado de tecido degenerado na conjuntiva, geralmente nas bordas da córnea, que não invade a córnea. É muito comum, geralmente assintomática ou com irritação leve, e raramente precisa de tratamento além de lubrificação ocular.
O pterígio é uma evolução mais avançada, em que o tecido anormal ultrapassa a borda da córnea e começa a crescer sobre ela. É aqui que os riscos para a visão aparecem. Muitos pterígios se originam de pinguéculas que progrediram.
O que causa o pterígio?
A causa exata não é completamente compreendida, mas a exposição à luz ultravioleta é o principal fator de risco identificado. Por isso o pterígio é muito mais prevalente em regiões tropicais, em pessoas que trabalham ao ar livre e em populações que vivem próximas ao equador.
Os principais fatores de risco são:
- Exposição cumulativa à radiação ultravioleta, especialmente UV-A e UV-B, sem proteção adequada
- Exposição ao vento, poeira e ambientes secos, que irritam cronicamente a superfície ocular
- Residência em regiões tropicais ou de altitude elevada, com maior incidência de radiação UV
- Trabalho ao ar livre por longos períodos, como agricultores, pescadores, construtores e motoristas
- Predisposição genética, pois o pterígio tende a ser mais frequente em determinadas famílias
- Olho seco crônico, que aumenta a irritação da superfície ocular
Sintomas do pterígio
Os sintomas variam conforme o tamanho e a atividade do pterígio:
Pterígio pequeno e estável
- Muitas vezes assintomático ou com sintomas mínimos
- Sensação leve de corpo estranho ou areia nos olhos
- Vermelhidão ocasional, especialmente em dias ensolarados, ventosos ou com exposição à poeira
- Aspecto estético que incomoda o paciente
Pterígio ativo ou avançado
- Vermelhidão persistente e irritação mais intensa
- Sensação de corpo estranho constante
- Lacrimejamento excessivo
- Visão embaçada quando o pterígio se aproxima do eixo visual
- Astigmatismo induzido, pela tração que o pterígio exerce sobre a córnea, distorcendo sua curvatura
- Em casos avançados, comprometimento significativo da visão central quando o pterígio cobre a pupila
Quando o pterígio precisa ser operado?
Essa é a pergunta central para a maioria dos pacientes. Nem todo pterígio precisa de cirurgia, mas existem indicações claras:
- Pterígio que avança sobre a córnea e se aproxima do eixo visual central
- Astigmatismo induzido significativo que prejudica a qualidade visual mesmo com óculos
- Sintomas persistentes que não respondem ao tratamento clínico com lubrificantes e anti-inflamatórios
- Pterígio que limita os movimentos oculares em casos avançados
- Indicação de cirurgia de catarata no mesmo olho, pois o pterígio pode interferir nos cálculos biométricos e no resultado cirúrgico
- Incômodo estético significativo que afeta a qualidade de vida do paciente
Por outro lado, pterígios pequenos, estáveis e com sintomas mínimos podem ser acompanhados sem cirurgia, com orientações de proteção solar e lubrificação ocular.
Como é a cirurgia de pterígio?
A cirurgia de pterígio consiste na remoção do tecido anormal da córnea e da esclera. A técnica utilizada é fundamental para reduzir o risco de recidiva, que é o principal desafio no tratamento do pterígio.
Técnica com autoexplante conjuntival
É a técnica mais utilizada atualmente e com as melhores taxas de sucesso. Após a remoção do pterígio, o defeito na conjuntiva é coberto com um enxerto de conjuntiva saudável retirado da parte superior do mesmo olho, sob a pálpebra superior. Esse enxerto pode ser fixado com suturas finas ou com cola biológica.
Essa técnica reduz significativamente a taxa de recidiva em comparação com a remoção simples sem enxerto.
Como é o procedimento
- Realizado em ambiente cirúrgico ambulatorial
- Anestesia local com colírio anestésico e, em alguns casos, pequena injeção ao redor do olho
- Duração de aproximadamente 20 a 40 minutos
- O paciente vai para casa no mesmo dia
- Uso de curativo ocular nas primeiras horas
Pós-operatório
- Colírios antibióticos e anti-inflamatórios por algumas semanas conforme prescrição
- Vermelhidão e desconforto nos primeiros dias são normais e esperados
- Evitar exposição solar direta, poeira e ambientes com vento nas primeiras semanas
- Retorno às atividades leves em poucos dias, atividades físicas de impacto após 2 a 4 semanas
- Acompanhamento regular nos primeiros meses para monitorar sinais de recidiva
O pterígio pode voltar após a cirurgia?
Sim. A recidiva é o maior desafio no tratamento cirúrgico do pterígio. Com a técnica de autoexplante conjuntival, as taxas de recidiva são baixas, em torno de 5 a 15%, mas existem fatores que aumentam esse risco:
- Pacientes jovens, que têm maior resposta cicatricial
- Pterígios muito vasculares e ativos no momento da cirurgia
- Continuidade da exposição aos fatores de risco após a cirurgia, especialmente sol e vento sem proteção
- Pterígio recidivado previamente, com maior tendência a recidivar novamente
O uso de proteção solar com óculos adequados após a cirurgia é fundamental para reduzir o risco de recidiva.
Tratamento clínico, quando não é necessário operar
Para pterígios pequenos, estáveis e com sintomas leves, o tratamento conservador inclui:
- Colírios lubrificantes para aliviar a irritação e a sensação de corpo estranho
- Colírios anti-inflamatórios nos períodos de maior inflamação e vermelhidão, sob orientação médica
- Óculos de sol com proteção UV-A e UV-B em todas as exposições ao sol
- Óculos com proteção lateral para quem trabalha em ambientes com vento ou poeira
- Acompanhamento regular para monitorar a progressão e definir o momento ideal para a cirurgia, se necessária
Pterígio e cirurgia de catarata
Pacientes com pterígio que necessitam de cirurgia de catarata merecem atenção especial. O pterígio pode distorcer a topografia corneana e interferir nos cálculos biométricos utilizados para escolher a lente intraocular. Em muitos casos, é recomendável operar o pterígio primeiro, aguardar a estabilização da córnea por alguns meses, e então planejar a cirurgia de catarata com medidas mais precisas.
Esse planejamento sequencial melhora significativamente a precisão do resultado refrativo na cirurgia de catarata.
Perguntas Frequentes
O pterígio pode causar cegueira?
Em casos muito avançados e negligenciados, em que o pterígio cobre completamente a córnea central, pode causar perda visual grave. Mas isso é evitável com acompanhamento regular e cirurgia no momento adequado. O pterígio não tratado raramente chega a esse ponto quando o paciente está em acompanhamento.
Posso usar colírio para fazer o pterígio regredir?
Não. Nenhum colírio elimina o pterígio ou faz com que ele diminua de tamanho. Os colírios controlam os sintomas e a inflamação, mas não tratam a causa. A única forma de remover o pterígio é cirurgicamente.
A cirurgia de pterígio é dolorosa?
Não durante o procedimento, que é realizado com anestesia local. No pós-operatório, é comum desconforto, sensação de areia e lacrimejamento por alguns dias, especialmente enquanto a sutura está presente. Dor intensa não é esperada e deve ser comunicada ao médico.
Com que frequência devo consultar se tenho pterígio e não vou operar ainda?
Geralmente a cada 6 a 12 meses, dependendo do tamanho e da atividade do pterígio. Se houver aumento de sintomas ou percepção de crescimento entre as consultas, procure o oftalmologista antes do prazo.
Tenho pterígio nos dois olhos. Os dois precisam ser operados?
Cada olho é avaliado individualmente. Se os dois têm indicação, geralmente são operados em momentos diferentes, com intervalo de algumas semanas, para que o paciente sempre tenha um olho funcionando bem durante a recuperação.
Prevenção do pterígio
A principal medida preventiva é a proteção contra a radiação ultravioleta:
- Use óculos de sol com proteção UV-A e UV-B certificada em todas as exposições ao sol, inclusive em dias nublados
- Prefira óculos com lentes maiores e proteção lateral, especialmente para atividades ao ar livre prolongadas
- Use chapéu ou boné de aba larga para reduzir a incidência direta de UV nos olhos
- Proteja os olhos em ambientes com vento, poeira ou produtos químicos
- Trate adequadamente o olho seco associado, que agrava a irritação da superfície ocular
- Faça acompanhamento oftalmológico regular se trabalha ao ar livre ou tem histórico familiar de pterígio
Conclusão
O pterígio é uma condição muito comum em regiões tropicais como o Brasil, e Formiga não é exceção. A maioria dos casos pode ser acompanhada sem cirurgia por um bom tempo, com proteção adequada e lubrificação. Mas quando o pterígio avança, causa astigmatismo ou compromete a visão, a cirurgia é a solução correta e os resultados são muito bons com a técnica adequada.
Se você tem pterígio e nunca consultou um oftalmologista, ou se faz tempo que não acompanha a evolução da lesão, não adie mais. O monitoramento regular é o que define o momento certo para agir.
Tem pterígio e não sabe se é hora de operar? Ou quer entender como proteger seus olhos para evitar que piore? Agende uma avaliação. Vamos analisar o tamanho, a atividade e os sintomas para encontrar juntos o melhor caminho.
Dra. Gabriella Lopes | Especialista em Retina e Catarata
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Sua visão não pode esperar.
