Descolamento de Retina: Sintomas, Causas e Tratamento

O descolamento de retina é uma das poucas emergências verdadeiras em oftalmologia. Cada hora sem tratamento pode significar perda permanente de visão. Entenda os sinais de alerta, quem está em risco e o que fazer se suspeitar que está acontecendo com você agora.

“Doutora, acordei e havia uma sombra escura no canto do meu olho. Esperei dois dias para vir, achei que ia passar.”

Essa frase me preocupa toda vez que a ouço. Dois dias de espera, em um descolamento de retina, podem ser a diferença entre uma cirurgia com excelente resultado e uma perda visual grave e irreversível.

O descolamento de retina não é uma doença que pode aguardar a agenda normal de consultas. É uma emergência. E reconhecer os sinais precocemente pode salvar a sua visão.


O que é o descolamento de retina?

A retina é uma camada de células sensíveis à luz que reveste o fundo do olho por dentro, como o papel de parede de uma sala. Ela capta as imagens e as transmite ao cérebro pelo nervo óptico. Para funcionar, ela precisa estar colada à camada que fica logo abaixo, chamada epitélio pigmentado da retina, que fornece oxigênio e nutrientes às células visuais.

O descolamento de retina acontece quando essas duas camadas se separam. Sem o suprimento de nutrientes, as células da retina começam a morrer rapidamente. Quanto mais tempo a retina fica descolada, maior e mais irreversível é o dano.


Tipos de descolamento de retina

Descolamento regmatogêneo, o mais comum

Ocorre quando uma ruptura ou buraco na retina permite que o líquido do vítreo passe para o espaço entre as camadas retinianas, descolando-as progressivamente. É o tipo mais frequente e o que tem melhor prognóstico quando tratado rapidamente.

As rupturas podem surgir espontaneamente, associadas ao envelhecimento do vítreo, a traumas oculares ou à tração do vítreo sobre a retina periférica.

Descolamento tracional

Ocorre quando membranas fibróticas que se formam sobre a retina, frequentemente associadas à retinopatia diabética proliferativa, puxam e tracionam a retina, separando-a da camada subjacente. Não há buraco na retina, e a progressão costuma ser mais lenta do que no tipo regmatogêneo.

Descolamento exsudativo

Causado pelo acúmulo de líquido sob a retina sem ruptura, geralmente associado a inflamações oculares, tumores intraoculares ou hipertensão arterial grave. O tratamento é direcionado à causa de base.


Quem está em risco?

O descolamento de retina pode acontecer com qualquer pessoa, mas alguns fatores aumentam significativamente o risco:

  • Miopia alta, acima de 6 dioptrias. Olhos mais longos têm retina mais esticada e periférica mais fina, com maior tendência a rupturas
  • Idade acima de 50 anos. O envelhecimento do vítreo, chamado descolamento do vítreo posterior, é o gatilho mais comum para rupturas de retina
  • Histórico de descolamento de retina no outro olho. O risco no segundo olho é significativamente maior
  • Histórico familiar de descolamento de retina
  • Trauma ocular ou cirurgia ocular prévia
  • Degenerações periféricas da retina, como lattice, identificadas no mapeamento de retina
  • Diabetes mellitus, pelo risco de descolamento tracional na retinopatia proliferativa
  • Uso de anticoagulantes em alguns contextos

Sintomas: os sinais que não podem ser ignorados

O descolamento de retina quase sempre avisa antes de se completar. O problema é que os sinais iniciais são sutis e fáceis de ignorar, especialmente quando a visão central ainda está preservada. Nunca ignore esses sintomas.

Sinais de alerta precoces, ruptura ou tração da retina

  • Fotopsias: flashes ou lampejos de luz, especialmente na visão periférica, frequentemente ao movimentar os olhos. São causados pela tração mecânica do vítreo sobre a retina
  • Miodesopsias súbitas: aparecimento abrupto de muitas moscas volantes novas, pontos, fios ou véus escuros no campo visual. Diferente das moscas volantes crônicas que muitos têm há anos, o surgimento súbito de muitas moscas é sinal de alerta importante
  • Chuva de pontos escuros ou fumaça: pode indicar hemorragia vítrea associada à ruptura de um vaso durante a tração da retina

Sinais de descolamento instalado

  • Sombra ou cortina escura em alguma parte do campo visual, geralmente começando pela periferia e avançando em direção ao centro
  • Perda progressiva do campo visual, como se uma cortina estivesse sendo puxada sobre a visão
  • Visão central distorcida ou embaçada quando o descolamento atinge a mácula, o que representa agravamento importante do prognóstico

O descolamento de retina não causa dor. A ausência de dor é um dos motivos pelos quais os pacientes demoram a buscar atendimento. Mas a ausência de dor não significa ausência de urgência.

Se você apresentar qualquer um desses sintomas, especialmente flashes de luz associados a moscas volantes novas e abundantes, procure um oftalmologista especializado em retina no mesmo dia. Não espere o dia seguinte.


Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito pelo oftalmologista por meio do mapeamento de retina com pupila dilatada, que permite visualizar toda a extensão da retina, identificar rupturas, áreas de tração e a extensão do descolamento.

Em casos de hemorragia vítrea que impeça a visualização direta da retina, o ultrassom ocular é fundamental para avaliar a integridade da retina e confirmar ou descartar o descolamento.

O OCT pode ser utilizado para avaliar o envolvimento macular, o que tem impacto direto no prognóstico visual e na urgência da cirurgia.


Tratamento do descolamento de retina

O tratamento depende do tipo, da extensão e do estágio do descolamento. O objetivo em todos os casos é recolocar a retina em sua posição original e fechar as rupturas que permitiram o descolamento.

Laser e crioterapia, para rupturas sem descolamento

Quando uma ruptura ou buraco é identificado antes do descolamento se instalar, é possível cercá-la com laser (fotocoagulação) ou crioterapia, criando uma “solda” ao redor da lesão que impede o líquido de passar por ela. É um procedimento ambulatorial, rápido e muito eficaz quando realizado a tempo.

Retinopexia pneumática

Técnica menos invasiva, indicada para descolamentos selecionados, geralmente superiores e sem complicações. Consiste na injeção de uma bolha de gás dentro do olho, que tampona a ruptura enquanto o laser ou a crioterapia criam a adesão definitiva. O paciente precisa manter posicionamento específico da cabeça por alguns dias para que a bolha fique sobre a ruptura.

Introflexão escleral, cirurgia externa

Procedimento cirúrgico em que uma faixa de silicone é suturada ao redor do olho por fora, “empurrando” a parede do olho em direção à retina descolada para aproximá-las. Pode ser combinada com drenagem do líquido subretiniano e crioterapia.

Vitrectomia, cirurgia interna

É a abordagem mais versátil e a mais utilizada atualmente para descolamentos complexos. O vítreo é removido cirurgicamente, as trações sobre a retina são liberadas, a retina é reposicionada e as rupturas são tratadas com laser. Ao final, o olho é preenchido com gás ou, em casos selecionados, com óleo de silicone, para manter a retina no lugar enquanto a cicatrização ocorre.

Após a cirurgia com gás, o paciente precisa manter posicionamento específico da cabeça por dias a semanas. Não pode viajar de avião enquanto o gás estiver presente no olho, pois a variação de pressão pode causar complicações graves.


Qual é o prognóstico após a cirurgia?

O resultado visual depende principalmente de dois fatores:

  • Se a mácula estava colada ou descolada no momento da cirurgia. Quando a mácula permanece colada, o prognóstico visual é muito melhor. Quando o descolamento já atingiu a mácula, a recuperação visual é mais limitada, mesmo com a retina recolada com sucesso
  • O tempo de evolução. Quanto mais rápido o tratamento, melhor o resultado

Em termos gerais, a cirurgia é bem-sucedida em recolocar a retina na grande maioria dos casos. Mas “retina colada” não significa necessariamente “visão normal”. As células maculares danificadas pelo período de descolamento podem não se recuperar completamente.

É por isso que a velocidade de busca por atendimento importa tanto.


Prevenção: o que você pode fazer

Nem todo descolamento de retina pode ser prevenido. Mas algumas medidas reduzem o risco e aumentam a chance de identificar problemas antes que evoluam para descolamento:

  • Mapeamento de retina regular, especialmente para míopes altos, pessoas acima de 50 anos e quem tem histórico familiar. O mapeamento identifica degenerações periféricas e rupturas antes do descolamento
  • Tratamento preventivo com laser de rupturas ou degenerações de risco identificadas no mapeamento
  • Atenção aos sintomas de alerta. Flashes e moscas volantes novas nunca devem ser ignorados
  • Proteção ocular em esportes de contato e atividades com risco de trauma
  • Controle do diabetes para reduzir o risco de retinopatia proliferativa e descolamento tracional

Perguntas Frequentes

Tenho muitas moscas volantes há anos. Preciso me preocupar?

Moscas volantes crônicas, presentes há muito tempo sem mudança, geralmente não indicam urgência. O sinal de alerta é o surgimento súbito de moscas volantes novas e abundantes, especialmente associadas a flashes de luz. Se isso acontecer, procure um especialista no mesmo dia.

Posso fazer exercício físico se tiver risco de descolamento?

Na maioria dos casos, sim. Atividades físicas moderadas não causam descolamento de retina. Esportes de contato ou com risco de trauma ocular merecem proteção adequada. Converse com seu especialista sobre as restrições específicas para o seu caso.

O descolamento de retina pode voltar depois da cirurgia?

Sim, existe risco de redescolamento, especialmente nos primeiros meses após a cirurgia. O acompanhamento regular no pós-operatório é fundamental para identificar e tratar precocemente qualquer recorrência.

Vou precisar operar o outro olho também?

Não necessariamente. Mas o olho companheiro de um paciente com descolamento de retina tem risco aumentado, e deve ser avaliado com mapeamento de retina. Se forem encontradas rupturas ou degenerações de risco, o tratamento preventivo com laser pode ser indicado.

Quanto tempo de repouso é necessário após a cirurgia?

Varia conforme a técnica utilizada e o caso específico. Em cirurgias com gás intravítreo, o posicionamento da cabeça é fundamental nas primeiras semanas. O retorno a atividades normais e ao trabalho é orientado pelo cirurgião conforme a evolução de cada paciente.


Conclusão

O descolamento de retina é uma das condições mais urgentes em oftalmologia, e o tempo é o fator mais crítico para o resultado visual. Reconhecer os sinais de alerta, especialmente flashes de luz e moscas volantes novas, e buscar atendimento especializado imediatamente pode ser a diferença entre preservar ou perder a visão.

Se você tem fatores de risco, como miopia alta, histórico familiar ou diabetes, o mapeamento de retina regular é a melhor forma de identificar problemas antes que evoluam para uma emergência. Não espere ter sintomas para fazer o exame.


Notou flashes de luz ou moscas volantes novas? Não espere. Esse é o momento de procurar atendimento especializado. Agende sua avaliação agora e proteja a sua visão antes que seja tarde.

Dra. Gabriella Lopes | Especialista em Retina e Catarata

📍 Av. Dr. Henrique Braga, 155, Centro, Formiga, MG, 35570-030
📞 (37) 3321-1572 | WhatsApp: (37) 98413-3754

Sua visão não pode esperar.