Estrabismo no Adulto: Causas, Sintomas e Tratamento

Muita gente ainda acredita que estrabismo é problema de criança e que adulto tem que aprender a conviver. Não é verdade. O estrabismo no adulto tem tratamento eficaz, melhora a qualidade de vida e pode ser corrigido em qualquer idade. Entenda o que é, por que acontece e quais são as opções disponíveis hoje.

“Doutora, tenho estrabismo desde criança. Sempre me disseram que adulto não opera. Isso é verdade?”

Não é verdade. Essa é uma das crenças mais antigas e mais prejudiciais que existem na oftalmologia popular. O estrabismo pode e deve ser tratado em adultos, tanto para melhorar a visão dupla e o desconforto visual quanto para os importantes benefícios na autoestima, nas relações sociais e na qualidade de vida.

O adulto com estrabismo que nunca buscou tratamento por acreditar que “não tem jeito” merece saber que as opções disponíveis hoje são seguras, eficazes e acessíveis.


O que é o estrabismo?

O estrabismo é o desalinhamento dos olhos, em que os dois olhos não apontam para o mesmo ponto ao mesmo tempo. Um ou ambos os olhos podem se desviar para dentro (esotropia), para fora (exotropia), para cima (hipertropia) ou para baixo (hipotropia).

Em crianças, o cérebro em desenvolvimento aprende a suprimir a imagem do olho desviado para evitar visão dupla, o que pode levar à ambliopia (olho preguiçoso). Em adultos, esse mecanismo de supressão é menos eficaz, e o estrabismo frequentemente causa visão dupla (diplopia), cansaço visual e dificuldade de concentração.


Causas do estrabismo no adulto

O estrabismo no adulto pode ter várias origens:

Estrabismo desde a infância não tratado ou regressado

Muitos adultos tiveram estrabismo na infância que foi tratado parcialmente ou que retornou após correção bem-sucedida. O estrabismo tratado na infância pode recorrer na vida adulta, especialmente em situações de estresse físico ou emocional, doença grave ou privação de sono.

Estrabismo adquirido na vida adulta

Pode surgir como consequência de diversas condições:

  • Paralisia de nervos cranianos: os nervos que controlam os músculos oculares (III, IV e VI pares cranianos) podem ser afetados por diabetes, hipertensão, aneurismas, tumores ou traumatismos cranianos, causando desvio ocular e visão dupla súbita
  • Doença de Graves (oftalmopatia tireoidiana): o hipotireoidismo e o hipertireoidismo podem causar inflamação e fibrose dos músculos oculares, levando a estrabismo restritivo
  • Trauma ocular ou orbitário
  • Cirurgias oculares prévias, incluindo cirurgia de catarata ou retina, que em alguns casos podem alterar o alinhamento ocular
  • Miastenia gravis e outras doenças neuromusculares
  • Acidente vascular cerebral (AVC) e outras lesões neurológicas
  • Tumores orbitários ou intracranianos

Atenção: visão dupla de início súbito em um adulto é um sinal de alerta neurológico que deve ser investigado com urgência, pois pode indicar aneurisma, AVC ou tumor.


Sintomas do estrabismo no adulto

  • Visão dupla (diplopia), o sintoma mais comum e incapacitante no adulto
  • Dificuldade de percepção de profundidade e visão tridimensional
  • Cansaço visual e dor de cabeça, especialmente após leitura ou uso de telas
  • Necessidade de fechar ou cobrir um olho para ver com clareza
  • Inclinação ou rotação da cabeça para compensar o desvio
  • Dificuldade em tarefas que exigem coordenação visual, como dirigir e descer escadas
  • Impacto psicossocial significativo: constrangimento nas interações sociais, dificuldades profissionais e baixa autoestima

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico do estrabismo no adulto envolve avaliação oftalmológica completa, com ênfase na motilidade ocular extrínseca e na fusão binocular:

  • Avaliação do alinhamento ocular com prismas e testes de cobertura (cover test)
  • Medida do desvio em diferentes posições do olhar
  • Avaliação da visão binocular e estereopsis
  • Exame do fundo de olho e da saúde ocular geral
  • Dependendo da causa suspeita: exames de imagem como tomografia computadorizada ou ressonância magnética da órbita e do crânio, exames laboratoriais para doenças sistêmicas como diabetes, tireoide e miastenia gravis

Tratamento do estrabismo no adulto

O objetivo do tratamento varia conforme a causa, o tipo e a magnitude do desvio, e as queixas do paciente. As principais opções são:

Tratamento da causa de base

Quando o estrabismo é secundário a uma condição sistêmica, como diabetes descontrolado, doença da tireoide ou miastenia gravis, o controle da doença de base pode melhorar ou resolver o desvio ocular. Por isso, a investigação clínica completa é sempre o primeiro passo.

Prismas ópticos

Lentes prismáticas incorporadas aos óculos desviam a luz antes de ela entrar no olho, compensando o desvio muscular e eliminando ou reduzindo a visão dupla. São uma opção conservadora, especialmente útil em desvios pequenos e estáveis, em pacientes que não desejam ou não podem ser operados, e como tratamento temporário enquanto se aguarda a estabilização do desvio para planejar a cirurgia.

Toxina botulínica (Botox ocular)

A injeção de toxina botulínica no músculo ocular hiperativo enfraquece temporariamente sua ação, permitindo o realinhamento dos olhos. O efeito dura de 3 a 6 meses e pode ser repetido. É uma opção útil para desvios recentes, paralíticos ou como tratamento de transição. Em alguns casos, especialmente de estrabismo agudo, uma única injeção pode resultar em alinhamento duradouro.

Cirurgia de estrabismo

A cirurgia é o tratamento definitivo para a maioria dos casos de estrabismo no adulto. Consiste no enfraquecimento ou fortalecimento dos músculos responsáveis pelo movimento ocular, ajustando o equilíbrio de forças e realinhando os olhos.

A cirurgia de estrabismo no adulto tem características distintas da cirurgia infantil:

  • Pode ser realizada com anestesia local em muitos casos, com sedação leve
  • Permite o uso de sutura ajustável, uma técnica em que o músculo é fixado provisoriamente e o alinhamento é ajustado enquanto o paciente está acordado, algumas horas após a cirurgia, aumentando significativamente a precisão do resultado
  • É um procedimento ambulatorial, com retorno às atividades em poucos dias
  • Tem altas taxas de sucesso, com melhora significativa do alinhamento na maioria dos casos

A cirurgia de estrabismo não é “apenas estética”. Além do evidente benefício na aparência e na autoestima, ela melhora a visão binocular, elimina ou reduz a visão dupla, alivia o cansaço visual crônico e pode reabrir oportunidades profissionais para pacientes que foram prejudicados pelo desvio ao longo da vida.


Estrabismo no adulto e qualidade de vida

Estudos mostram que adultos com estrabismo têm taxas significativamente maiores de depressão, ansiedade social e dificuldades profissionais do que a população geral. O impacto vai além do visual: afeta a forma como a pessoa é percebida pelos outros e como ela se percebe.

Após a cirurgia de estrabismo, pacientes relatam melhora expressiva não apenas na visão, mas na confiança, nas relações interpessoais e na disposição para atividades sociais e profissionais. Esse benefício psicossocial é tão real e tão importante quanto o benefício visual.


Perguntas Frequentes

Adulto pode operar estrabismo?

Sim, com certeza. A cirurgia de estrabismo é segura e eficaz em qualquer idade. A crença de que “adulto não opera” é ultrapassada e não tem base científica. A idade não é contraindicação para o tratamento do estrabismo.

A cirurgia de estrabismo no adulto dói?

A cirurgia é realizada sob anestesia, portanto sem dor durante o procedimento. No pós-operatório, é comum algum desconforto, sensação de areia nos olhos e vermelhidão por alguns dias, que melhoram progressivamente. Dor intensa não é esperada.

Quantas cirurgias são necessárias?

Em muitos casos, uma única cirurgia é suficiente para obter alinhamento satisfatório. Em desvios grandes, complexos ou com músculos envolvidos em mais de um eixo, podem ser necessárias duas ou mais intervenções. O planejamento cuidadoso e o uso de sutura ajustável aumentam a chance de sucesso na primeira cirurgia.

Vou precisar de óculos após a cirurgia de estrabismo?

Depende. A cirurgia corrige o alinhamento dos olhos, mas não o grau de óculos. Pacientes que precisavam de óculos antes da cirurgia provavelmente continuarão precisando após. Em alguns tipos de estrabismo acomodativo, associados à hipermetropia, os óculos são parte fundamental do tratamento.

Quanto tempo dura a recuperação?

A maioria dos pacientes retorna às atividades normais em 3 a 7 dias. O alinhamento final se estabiliza em algumas semanas. Atividades físicas de impacto e natação devem ser evitadas por cerca de 2 a 4 semanas conforme orientação do cirurgião.


Conclusão

O estrabismo no adulto é tratável, e o tratamento pode transformar a qualidade de vida de forma profunda. Seja um desvio que persiste desde a infância, seja um desvio adquirido na vida adulta, existem opções eficazes disponíveis, da prismoterapia à cirurgia com sutura ajustável.

Se você convive com estrabismo e nunca buscou tratamento por acreditar que “adulto não tem jeito”, esse é o momento de mudar essa história. Uma avaliação especializada pode abrir caminhos que você não sabia que existiam.


Tem estrabismo e nunca tratou por achar que não havia solução? Ou está com visão dupla de início recente? Agende uma avaliação. Nunca é tarde para cuidar do alinhamento dos seus olhos, e os resultados podem surpreender.

Dra. Gabriella Lopes | Especialista em Retina e Catarata
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Sua visão não pode esperar.